IVANILDE MOREIRA
Parte 1
A partir de hoje abro um espaço aqui para comentar memórias de tempo de escolaridade, idos há muito tempo e com eles, alguns professores inesquecíveis.
Vou começar com a minha alfabetizadora: Dona Dirce!
Mulher austera, nervosa, estatura baixa, cabelos médios até os ombros, arrumados com laquê, saias até abaixo do joelho, enfim, bem “professoral”.
Ela até que era legal, mas muito brava comigo e com as crianças que não aprendiam; eu era uma delas (repeti a primeira série duas vezes!!).
Interessante que a cena que descreverei aqui me lembra muito uma cena do filme “Cinema Paradiso”.
Eu tinha muita dificuldade de entender o “cedilha” da letra C. Aquilo não entrava em minha cabeça, de modo algum!
Certa vez ela me colocou na lousa e queria de todo jeito que eu colocasse o “cedilha” no lugar certo, mas eu insistia em colocá-lo fora do lugar. A cada tentativa frustrada (de ambas) ela me pegava pelo cabelo e esfregava o meu nariz na lousa para apagar o erro
Numa cena do filme Cinema paradiso, um garotinho vai até a lousa tentar responder às perguntas da professora sobre a tabuada do cinco. A cada erro seu, à semelhança do que ocorria comigo, a professora batia com a cabeça do garoto na lousa.
Andei pensando recentemente, a respeito da semelhança das duas cenas (uma fictícia e outra real) e refletindo sobre escola, currículo, professores, autoritarismo, enfim, sobre muitos aspectos da vida escolar.
Uma das primeiras coisas que observei e refleti com mais cuidado, foi o contexto: duas professoras, bem distantes uma da outra (uma real e outra fictícia, uma na Europa – Italia- (fictícia) e a outra no Brasil (real).
A preocupação da professora italiana: “se vocês não aprenderem tabuada não arranjarão emprego” – uma fala colada num contexto europeu pós-guerra, quando o país, à semelhança de toda a Europa, tentava se reerguer das cinzas deixadas pela segunda grande tragédia bélica.
A preocupação da professora brasileira: “você precisa aprender a ler e escrever (eu não sabia porque, pois diferentemente da professora italiana, a minha não explicava); mas hoje com tanta tecnologia e possibilidade de pesquisa, é só abrir um site de busca qualquer ou mesmo lembrar das histórias contadas por nossos mestres do ginásio sobre o Brasil da década de setenta e “o milagre econômico”, que bem rapidamente conseguimos compreender a Dna Dirce e suas atitudes.
O “cedilha” não entrava em minha cabeça num momento em que os militares governavam o pais, cujo lema “ordem e progresso” era levado a ferro e fogo por todos os que se ligavam ao serviço público da época. A Dna Dirce não estava ali para me alfabetizar porque se preocupava comigo, mas sim tentava me alfabetizar para não desapontar o governo militar que tinha de manter a ordem a qualquer preço, afinal não existe progresso nem “milagre econômico” com uma população analfabeta!
Em que pesem as diferenças culturais, históricas, econômicas, políticas, que separam o sujeito do filme, do sujeito real, uma coisa não tem como negar: ambas as professoras deixaram marcas profundas naquelas duas crianças!
O ”cedilha” até hoje pra mim é um problema: mesmo tendo feito Pedagogia, pós-graduação e mestrado em Linguística, esse tal de “C com cedilha” ainda me persegue!
Para complicar mais um pouco, nesse momento escrevo no teclado do meu lap top, que, por ironia do destino, pra fazer “C com cedilha”, pede que se apertem duas teclas simultaneamente. Parece brincadeira de mau gosto! Quando fui comprar o computador, nem me dei conta! Porque não comprei uma máquina que me facilitasse esse serviço? Afinal existem teclados e teclados por aí!
É! Talvez Freud explique!
Que professora inesquecível hein?
Como professor reflito.Quais são as marcas que deixo?
É claro que no “calor” do dia-a-dia de sala de aula, precisamos estar atentos no que fazemos e naquilo que deixamos de fazer.
Pois, é, meu amigo Zé Antônio!
Esse texto nos convida à reflexão sobre quem somos enquanto educadores e o que estamos fazendo na vida daqueles que nos foram confiados!
Valeu o comentário.
Bjs
Com certeza,todos os meus professores são inesquecíveis!! Não faço idéia da marca que estou deixando nos meus alunos; mas a marca que a profa Dra Ivanilde Moreira nos deixou na palestra de hoje na minha cidade, Educação e sonho,sem dúvida é também inesquecível!! Amamos a sua palestra e lição de vida!!