Ivanilde Moreira
“Existe algo que não é mencionado em nenhum manual; Platão já havia acusado como condição indispensável a todo ensino: o Eros, que é, a um só tempo, desejo, prazer e amor; desejo e prazer de transmitir, amor pelo conhecimento e amor pelos alunos. O eros permite dominar a fruição ligada ao poder, em benefício da fruição ligada à doação. É isso que, antes de tudo mais, pode despertar o desejo, o prazer e o amor no aluno. Onde não há amor, só há problemas de carreira e de dinheiro para o professor; e de tédio, para os alunos. A missão (de ensinar) supõe, evidentemente, a fé: fé na cultura e nas possibilidades do espírito humano. Portanto, é missão muito elevada e difícil, uma vez que supõe, ao mesmo tempo, arte, fé e amor” (Morin, 2003).
Essa posição de Morin me remete à ideia de um professor como gestor de conhecimentos, que tem como características, entre tantas outras, a liderança, a responsabilidade, a autoridade, o carisma e a competência.
A liderança de um professor poderia ser entendida e/ou definida de várias maneiras, mas prefiro defini-la como a capacidade de detectar as necessidades legítimas do aluno e não medir esforços para que tais necessidades sejam atendidas.
Necessidades legítimas são aquelas que no momento da interação, o aluno deixa explícitas, indo desde as fisiológicas até as cognitivas e/ou emocionais. Na condição de líder, o gestor de conhecimentos não fica indiferente a elas e se esforça para derrubar as barreiras que estejam impedindo o aluno de aprender.
A responsabilidade do educador não se delega a ninguém! Cumprir com os deveres da profissão é uma das características mais marcantes do professor, principalmente nesses tempos em que a família passa por crise de autoridade e sem parâmetros claros de como encaminhar a educação dos filhos. O gestor de conhecimentos, guiado por princípios éticos, sabe vibrar com as conquistas da mesma maneira como, de cabeça erguida, reconhece o fracasso e o aceita humildemente.
Um gestor de conhecimentos tem autoridade sobre processos e pessoas sem utilizar da força e persuasão. Arendt (2002) afirma que onde ambas prevalecem (força e persuasão), a autoridade falhou.
O exercício da autoridade passa pela capacidade docente em reconhecer o fio tênue que delimita os territórios da opressão e o da argumentação e pela capacidade de posicionamento de lugares e papéis na interação social. Uma sala de aula, regida por um gestor de conhecimento, é um espaço para ricas trocas de informações e construção de conhecimento, numa relação professor aluno pautada no respeito e na clareza de posições de seus integrantes, sendo que ambos subordinam-se diretamente à figura e firmeza do educador.
Atreladas a essas características, está o carisma docente. Para saber se um educador é carismático, basta que se busque em seus gestos, ações e palavras, o grau de verdade que ele coloca na interação com os alunos.
Penso que a educação contemporânea está carente de líderes carismáticos, pois há muita hipocrisia no meio educacional. Uma vez que sabemos há muito tempo que as crianças aprendem aquilo que vivem, seria interessante e humanamente imprescindível que os educadores se posicionassem com mais carisma (verdade) diante de crianças e adolescentes.
A competência é o conjunto de todas essas características; é algo que se constroi a vida toda. Ninguém nasce competente. Tornamo-nos competentes à medida em que vivemos e interagimos com os outros.
Ser um educador competente no século XXI é um desafio ímpar para aqueles que escolheram a docência como profissão, pois sua competência será forjada e estruturada num cenário tecnológico, veloz, multifacetado e extremamente dinâmico, como é o cenário desses tempos pós-modernos[1].
Somadas a essas características contempladas no perfil do gestor de conhecimentos (o professor), está a competência (sensibilidade) solidária. Não podemos negar que o momento que vivemos é deveras complexo e difícil. A situação do professor está cada vez mais problemática, pois a sociedade tem cobrado muito e oferecido muito pouco a esse profissional. No entanto, para assumir uma profissão como essa, é preciso ter clareza de seus obstáculos e dificuldades, pois nem tudo é colorido no mundo de um educador.
Buscar conhecer a comunidade onde está “plantada” a escola é condição necessária para o exercício da profissão docente. Além de tudo isso é preciso estudar sempre, e muito, e tanto quanto for necessário, para ter mais segurança no ofício.
Síntese que nos auxilia ma compreensão daquilo que seria uma interação professor aluno favorável à aprendizagem :
a) diagnosticar inicialmente os conhecimentos prévios do aluno, aquilo que ele já sabe, já conhece, sendo o seu desenvolvimento real;
b) da diagnose inicial, procurar pensar no que fazer para que ele melhore esse conhecimento;
c) considerar os conhecimentos prévios do aluno e os conflitos cognitivos que ele enfrenta enquanto aprende;
d) olhar os erros como possibilidade de entendimento daquilo que ocorre no pensamento do aprendiz e não como algo negativo a ser evitado;
e) favorecer as trocas entre os alunos e entre professor aluno a fim de promover o encontro entre os estímulos do meio e as possibilidades de construção interna do aluno;
f) ver a avaliação como momento privilegiado de aprendizagem, como um “mapa” que indica o caminho a ser seguido rumo à aprendizagem significativa e não como medida ou punição;
g) ter vontade/desejo explícito de intervir no processo de aprendizagem a fim de ajudá-lo;
h) tomar decisões sobre aquilo que o aluno tem que aprender e criar as condições favoráveis para que ele aprenda;
i) planejar sistematicamente as aproximações sucessivas entre o aluno e os objetos de conhecimento cuidando de garantir a sequência de atividades previstas na unidade didática;
j) cuidar das mediações atuando com arte e técnica na zona de desenvolvimento proximal, pois é exatamente ela que delimita a margem de interferência da ação educativa;
k) compreender que uma interação professor aluno favorável ao aprendizado independe de métodos específicos de ensino, pois a melhor ajuda pedagógica é aquela que se traduz em níveis distintos de ajuda e diretividade;
l) considerar que existe diversidade entre os alunos, quanto às suas formas de aprender, pois cada um é único em relação a isso, portanto ao professor cabe diversificar os métodos de ensino.
[1] Cf. Bauman, 2001