REVISTA 1. O livro “Por uma vida melhor” foi alvo de muitas críticas, recentemente, por afirmar que o aluno pode sim falar de forma diferente ao que é estabelecido pela norma culta. A autora diz que, dependendo da situação, não há problema em cometer erros de concordância, desde que o aluno saiba usar a variante lingüística adequada para cada situação. Fazer esse tipo de afirmação em um livro didático, voltado para adultos, é correto ou a autora cometeu um equívoco?
IVANILDE: Falar “certo” ou “errado” é uma questão antiga no meio educacional. É um assunto que há muito tempo divide educadores e linguistas.
A posição da autora é bastante próxima daquela que tenho como pedagoga e mestre em linguística aplicada ao ensino da língua materna.
Em primeiro lugar gostaria de apontar que a ideia de “certo” e “errado” em termos linguísticos, não existe, pois falar “nóis vai” ou “nóis foi” ou ainda “nós vamos”, “nós fomos” não é uma questão linguística, mas sim, uma questão política!
Quem vai (seja no singular ou plural), vai do mesmo jeito! E anuncia claramente isso, seja falando o “certo” ou o “errado”, ou seja, em termos de comunicação, fica tudo entendido.
O problema que vejo aí é a questão do poder. Quem pode mais numa sociedade capitalista é quem detém o “capital” linguístico de prestígio (a norma culta) e quem pode menos é quem não detém o mesmo “capital”.
Nesse caso, penso que a escola precisa parar de camuflar as coisas e falar abertamente com os alunos do EJA, pois são adolescentes e adultos, tendo nesse caso, uma visão de mundo praticamente definida.
Os adultos são pessoas amadurecidas (psicológica, jurídica e biologicamente), merecendo nesse caso, um tratamento respeitoso e honesto, transparente. Por isso, penso que a hipocrisia nesse contexto não deve prevalecer (refiro-me à postura sempre presente na escola de tentar criar eufemismos para encobrir as verdades).
Penso que a escola contemporânea precisa ser mais autêntica e menos hipócrita! É preciso ter CORAGEM para assumir certas coisas e falar abertamente com os alunos de hoje, que são muito “antenados”, pragmáticos e realistas.
Essa história de dizer que é perigoso ensinar mostrando o “errado” porque reforça o erro, é um equívoco, porque se assim fosse, então porque a maioria dos alunos não aprende o “certo”? Principalmente os excluídos da escola no tempo regular (os jovens e adultos). Não podemos nos esquecer de que essas pessoas foram “expulsas” de maneira cruel e dissimulada, pelo mesmo sistema escolar que hoje as “convida” para voltar e lhes apresenta materiais alternativos como esse que causou tanta polêmica!
Nesse caso, há de se louvar a atitude corajosa das autoras do material didático “viver e aprender”.
REVISTA : Considerar as variações lingüísticas significa dizer que não existe mais o certo ou o errado?
IVANILDE: Penso que não existe o certo e o errado; existe o ético!
Nesse caso, vejo que não existe forma mais cruel e declarada de preconceito cultural do que deixar cidadãos (alunos) estacionados no porto da ignorância (aqui no caso, sem o domínio do conhecimento da língua portuguesa escrita e falada (padrão e culta).
Considerar as variações linguísticas é uma questão política, ética e humana; nesse caso, pergunto: o que é “certo” e o que é “errado”?
REVISTA: Nos exames que avaliam o domínio da língua portuguesa, o Brasil não tem alcançado resultados satisfatórios. Isso mostra que é necessário rever a forma de ensinar a língua portuguesa?
IVANILDE: Urge revermos a prática de ensino da língua portuguesa em nossas escolas. Como diz Délia Lerner, uma importante pesquisadora educacional, “ler e escrever é tirar carta de cidadania”. A escola brasileira, infelizmente, vem há tempos, deixando de cumprir esse papel. É preciso, com urgência, rever a formas de ensinar a língua portuguesa, e mais do que isso, é preciso repensar e reorganizar a formação de nossos professores, pois grande parte dos cursos de graduação não dá conta dessa demanda de maneira satisfatória.
REVISTA: Existe uma maneira mais adequada para o ensino da língua portuguesa?
IVANILDE: Penso que sim. Leitura e escrita têm função social. É preciso que esse ensino esteja constantemente atrelado à vida prática, ou seja, funcional, pois na sociedade lemos e escrevemos nos mais variados contextos. O aluno precisa saber desde muito cedo que não escreve para o professor, mas sim para um leitor, que pode ser real ou virtual, que escreve para a prática da cidadania e não para fazer trabalhos escolares. A escola precisa trazer o mundo para dentro dela e nesse caso, a língua portuguesa é um importante veículo.
REVISTA: Os atuais professores estão prontos para abordar as variações linguísticas?
IVANILDE: Não, não estão. Isso é questão de tempo e formação (inicial e continuada). Essa história está apenas no começo.