IVANILDE MOREIRA
“As crianças começam por amar os seus pais; quando crescem, julgam-nos; algumas vezes, perdoam-lhes”
(Oscar Wilde)
A palavra “morte” é sempre assustadora para nós humanos, pois significa no nosso imaginário, o FIM.
Toda vez que somos informados da morte de alguém conhecido, ficamos abalados e muitas perguntas surgem nas nossas cabeças: Por que existe a morte? Qual o sentido da vida? Para que tudo isso? Aonde iremos parar?
Nesses momentos sentimo-nos impotentes; ficamos inertes, abismados, pois sabemos que nada podemos diante da morte.
E não há como deixar de observar que o sentido de impotência nos remete, por razões muito mais óbvias do que meramente linguísticas, à ideia de “poder”.
Somos seres políticos; isso significa, entre tantas outras coisas, que somos gregários, coletivos, ou seja, vivemos COM e PARA o outro.
Nesse sentido, por vivermos com outros humanos, disputamos constantemente o poder, sendo que a luta por ele é inerente à nossa espécie, levando-nos amiúde à sua conquista, manutenção e perpetuação; e é exatamente no aspecto da “perpetuação” que esbarra o problema da morte, pois com ele tomamos consciência do quanto somos seres frágeis; temos a ilusão de que tudo podemos, quando de fato, nada podemos.
Desde a antiguidade até os nossos dias, inúmeros são os exemplos que demonstram a sede de poder do ser humano. Os romanos, por exemplo, eram ávidos por conquistar e perpetuar o poder; quem é que não se lembra da famosa lição escolar “a expansão do império romano”?
No período medieval, as cruzadas ou “guerra santa” não deixaram dúvidas sobre a fome de poder que tanto perturba o ser humano, não sendo necessário aqui um maior prolongamento sobre o assunto.
Na idade moderna, vários são os nomes e fatos históricos que poderíamos enumerar para reforçar essa ideia, basta lembrarmos o episódio da revolução francesa, que mudou definitivamente o mundo.
Contemporaneamente as coisas não são diferentes. Não podemos deixar de considerar “esquisitices” e coisas bizarras que são mostradas cotidianamente nesse cenário veloz, multidisciplinar e complexo, denominado de “pós-moderno” pelo sociólogo Zygmunt Bauman.
O homem contemporâneo, pós-moderno, é muito chegado na necessidade de aparecer, de ser diferente e impressionante. É preciso estar em evidência a qualquer preço, pois se isso não acontece, pode ser vergonhoso. Ser anônimo é ser nada! Para conquistar, manter e perpetuar o poder nesse contexto muitos acreditam que é preciso entrar e permanecer em cena, custe o que custar!
Nesse cenário, diariamente, somos seduzidos por “celebridades” que, de maneira muitas vezes meteórica, surgem e desaparecem com a velocidade da luz, ou ainda por outras que aparecem e ficam, permanecendo por muito tempo na memória das pessoas, pois marcam época e delimitam eras.
Foi nesse contexto, de cometas e estrelas, que recentemente recebemos a notícia da morte de Michael Jackson, o “Rei do Pop”.
O mundo parou, a mídia “ferveu”, a agitação tomou conta dos mais variados meios de comunicação e rapidamente, em meio a muitas especulações que sempre cercaram a vida desse artista, surgiram dois times: o daqueles que gostam e o dos que não gostam de Michael Jackson, fundindo-se nesse caso, o autor e sua obra.
É fato recorrente na história da humanidade a ausência de “coincidência virtuosa” entre a pessoa do autor e a relevância da sua obra, pois infelizmente, há muito juízo de valor negativo emitido sobre o autor que acaba ofuscando muitas vezes a grandeza dos seus feitos.
Nesse sentido, gostar ou não gostar de Michel Jackson não tira o mérito que esse homem teve, tem e terá para a arte, pois há consenso geral de que a partir de 25 de junho de 2009 (data da sua morte), ele entrou, definitivamente, para a história da música.
Entre todos os fatos e circunstâncias que cercam o misterioso cantor, o que me chama mais a atenção, é o conjunto de palavras adulto, Neverland e Peter Pan. E é exatamente aí que vejo a grande problemática que cerca a figura já mitológica e legendária de Michael Jackson.
É do conhecimento de muitos, o fato de que o cantor tinha uma propriedade rural com o nome Neverland (terra do nunca), assim como é do conhecimento de alguns (nem todos, infelizmente) que Neverland é a terra do Peter Pan, o menino que não queria crescer, personagem do escritor escocês James Barrie, imortalizado por Walt Disney em um de seus filmes em 1953.
A vida pessoal de Michael Jackson tornou-se pública depois dele tornar-se uma grande estrela da música. No cenário dessa história complexa e problemática, conhecemos a figura nada simpática de Joseph Jackson, seu pai, um músico frustrado que projetou nos filhos o sucesso que não obtivera na carreira artística.
De acordo com informações jornalísticas, os irmãos Jackson tiveram sua infância saqueada pelo pai, Joseph Jackson, que os obrigava ainda crianças, a uma carga horária absurda de treinamentos e ensaios diários, sendo que Michael foi um dos mais sacrificados, pois tinha apenas cinco anos de idade quando começou a ser preparado para o mundo artístico.
Sr Jackson é uma figura que ganha um relevo muito grande nessa intrigante história e chego a pensar se, simbolicamente, não seria ele, o terrível capitão Gancho nas fantasias de Michael Jackson, à semelhança do personagem Peter Pan.
O que teria levado o cantor a adotar em suas apresentações, depois de seguir carreira solo, trajes parecidos com o uniforme MILITAR?
Capitão. Militar. Autoritarismo. Austeridade. Conjunto léxico com muita similaridade semântica e aproximada da ideia de PODER!
O infante Michael Jackson foi submetido ao poder e rigor do pai, o que o forçou a se comportar no mundo artístico como alguém que não podia errar, pois erro não combina com poder! Daí o perfeccionismo que muito sabemos, perseguiu toda a carreira do menino Michael Jackson, fato que contribuiu para torná-lo o “Rei do Pop”!
Da infância humilde e pobre à vida adulta célebre, excêntrica e milionária, Michael Jackson se desenvolveu como um ser humano de poder. O dinheiro deu-lhe a possibilidade imaginária de ter tudo o que pensava e desejava, inclusive a “compra” de três filhos, a branquitude epidérmica, a eterna juventude e o prolongamento da infância!
É impressionante como tudo o que cerca Michael Jackson, lembra a infância, o surreal, o nonsense. O menino que não queria crescer negava visivelmente o universo adulto.
Suspeito que isso se deva ao fato do artista saber que tal universo é fonte constante de desprazer e frustrações. O mundo adulto é, por natureza, austero, chato, entediante, opressor, pois é o mundo da responsabilidade. É o mundo no qual as futuras gerações são forjadas. Aí estaria o grande paradoxo vivido pelo artista: para a perpetuação do poder, sabia que precisava entrar nas ondas do futuro, mas para adentrá-las teria de encarar a realidade e viver frustrações.
Penso que era esse mundo que o cantor não queria assumir, pois fora vítima dele, sabendo conscientemente que aderir a ele, seria render-se ao princípio da realidade, coisa que, ao que tudo indica, Michael Jackson tinha uma incrível dificuldade de aceitar!
Mas, será que poderia ser diferente para uma criança que não pôde ser criança? Um menino que não pôde brincar, correr, soltar pipas, ouvir historinhas, cantar canções inocentes no colégio, comer pipoca, ir ao circo, pular corda, subir em árvores, ir ao cinema, visitar os avós nas férias, coisas tão recorrentes na vida de uma criança normal?
Outro paradoxo que ronda a figura emblemática desse mito da música pop é, de um lado, a exaltação da infância (sua pureza e inocência) e do outro, o crime de pedofilia (repugnante e sórdido). Como esquecer seu grito de desespero pela infância faminta da África em We are the world, canção que ele compôs com Lionel Ritchie? Por outro lado, como não se incomodar com aquele sorriso meigo, doce e terno do suposto adulto pedófilo Michael Jackson, tantas vezes mostrado pela mídia?
São muitas perguntas e poucas respostas, mas é difícil de acreditar que o “Rei do Pop” tenha se comportado de forma deliberada com o intuito declarado de ferir as crianças que tanto o admiravam e que ele por reciprocidade, também idolatrava.
Ao pensar em tudo isso, torna-se inevitável não se emocionar com o conteúdo textual de Thriler, que muito além da coreografia impecável e musicalidade original, expõe o mundo nebuloso, fantasmagórico e assustador inerente ao imaginário infantil e que tanto assombrou o cantor durante toda a sua vida.
“É quase meia-noite
E algo malígno está te espreitando no escuro
Sob a luz da lua
Você tem uma visão que quase pára o seu coração
Você tenta gritar
Mas o terror toma o som antes de você fazê-lo
Você começa a congelar
Enquanto o horror te olha bem nos seus olhos
Você está paralizado!”
Um misto de medo, susto, mistério e abandono, à semelhança de Don Giovanni, personagem assustador de uma ópera produzida por Mozart em 1787 (aliás, incrível a semelhança na história de vida desses dois gênios da música, envolvendo a figura de um pai castrador, um talento indiscutível, uma vida de sucesso, fama, glória, fortuna, decadência, doença, dívida e problemas pessoais).
Criança, paternidade, vida adulta, presente, passado, futuro…
Nesse momento, enquanto os olhos do mundo se voltam para a figura do “Rei do Pop”, os mistérios de sua vida, o mérito de sua obra, as circunstâncias de sua morte (ainda pouco esclarecidas), algo muito me preocupa: o futuro das três crianças, filhas do cantor!
Se a sua infância foi tumultuada, sofrida e entrecortada por cobranças paternas, penso que a vida adulta dos seus filhos também trará reflexos do presente confuso, complexo, nebuloso e enigmático de Michael Jackson.
Torço, sinceramente, para que alguém preste muita atenção nisso e encaminhe da melhor maneira possível a saúde mental e afetiva dos três herdeiros de toda essa história atípica, para que esse ciclo vicioso de tragédias pessoais seja interrompido de uma vez por todas!
Como fã assumida de cantor, fico por aqui, guardando comigo a imagem daquele meigo sorriso infantil que tanto encantou o mundo, as cenas coloridas dos Jackson Five e a intrigante imagem do personagem do Thriler, que, ao entrar em cena, sintetizou três décadas de sons e ritmos, imortalizando Michael Jackson nas lembranças de milhões de fãs espalhados pelo planeta, perpetuando assim o poder que ele tanto desejou enquanto viveu!
Para os que como eu, conseguiram conhecer, respeitar e apreciar a obra desse grande artista, fica aqui a minha solidariedade nesse momento de dor e vazio, e o desejo sincero de que Deus acolha Michael Jackson em seus braços, com todas a honras e pompas que ele merece!